Hiroshi Bogéa – Existe um fenômeno fascinante na política brasileira: o momento em que a Polícia Federal toca a campainha às seis da manhã.
É uma hora ingrata, convenhamos. O café ainda não passou, o pijama de seda italiana está amassado e, subitamente, o “Excelentíssimo” se vê diante de agentes que não estão ali para o beija-mão habitual.
O que se segue não é um improviso.
É um balé coreografado, uma peça de teatro barroco onde o roteiro é tão previsível quanto o final de filme de sessão da tarde. Se você quer entender a alma de um investigado — como vimos recentemente nos desdobramentos de casos como o do Banco Master e tantos outros — basta observar a evolução das “Notas Oficiais”.
Quando a viatura estaciona, o gabinete de crise entra em modo automático.
O primeiro passo é o “choque de integridade”. A nota, geralmente escrita por um advogado que cobra por vírgula, invariavelmente contém as seguintes pérolas:
“Recebeu com estranheza as medidas tomadas”.
Estranheza é o que a gente sente quando vê um abacaxi na pizza; ser alvo de busca e apreensão por desvio de verba costuma ser uma possibilidade estatística para certos gestores, mas eles insistem no susto.
“Sempre pautou sua vida pública pela mais rigorosa obediência às leis e à ética”.
É uma frase linda. Se fosse verdade, o sujeito seria canonizado, não investigado.
“O investigado segue à disposição para colaborar com a Justiça”.
Tradução: “Não vou dizer uma palavra sem meu advogado e, se puder, vou trancar o processo com três liminares antes do almoço”.

O caso do Banco Master e seus satélites nos ensina que a dissimulação é uma arte refinada. Quando o cerco aperta, a estratégia muda do “eu não fiz” para o “eu não sabia que era assim”.
É o momento da nuvem de fumaça. Em vez de explicar por que o dinheiro foi parar na conta da empresa do primo, a autoridade publica um texto de três páginas sobre sua “história de serviços prestados ao país”. É como se o fato de ter inaugurado uma ponte em 1994 anulasse a suspeita de lavagem de dinheiro em 2024.
A verdade é que a nota oficial de um político sob investigação é o único gênero literário onde se escreve muito para não dizer absolutamente nada.
Se as provas forem muito robustas (fotos, malas, áudios em 4K), resta a última cartada: o martírio.
O investigado deixa de ser um suspeito de corrupção para se tornar uma vítima de uma “perseguição implacável” ou de um “espetáculo midiático”. A culpa nunca é do contrato superfaturado, é sempre do delegado que queria aparecer no jornal.
No fim das contas, a gente já sabe o que esperar.
Amanhã teremos outra operação, outra nota padrão, outro “homem público de conduta ilibada” jurando de pé junto que o esquema de corrupção aconteceu totalmente à revelia da sua vontade — quase como se o dinheiro tivesse pulado na conta dele por mera carência afetiva. (HB)



