Dizem que o rio corre para o mar, mas a memória da gente corre é para as pedras. Para quem nasceu com o pé na extensão do Tocantins e os olhos mergulhados na correnteza, o rio não é apenas um mapa hidrográfico; é um parente antigo, cheio de manias e nomes próprios. Por isso, dói no ouvido — e dói mais ainda no peito — ver a pressa da “grande imprensa” em aparar as arestas da nossa geografia afetiva.
Faz tempo chamam o nosso gigante de “Pedral do Lourenço”. Assim, no diminutivo da alma, um nome polido, higienizado, como se tivessem passado um verniz de dicionário em cima da nossa história.
Para o jornalista no ar-condicionado de Belém, São Paulo ou Brasília, tirar o “ão” parece economia de caractere. Mas, para quem foi criado ouvindo o estrondo das águas batendo nas rochas, o Lourenção não aceita diminutivo. O sufixo ali não é apenas gramática; é volume, é respeito, é a medida exata do perigo e da beleza.
O ribeirinho entende o mundo pela proporção. O Lourenção é grande porque o Tocantins é imenso. Tentar chamá-lo de “Lourenço” é como tentar vestir uma roupa de criança num gigante: a costura estoura.
O Lourenção é o rugido da água que assusta o barqueiro.
O Lourenção é o marco que separa a coragem do juízo.
O Lourenção é o nome que meus avôs e pai pronunciavam com a reverência de quem fala com um deus de pedra.
Quando a imprensa “corrige” o povo, ela não está apenas informando; ela está desbotando a nossa identidade.
É uma forma de dizer que o jeito que a gente fala — o jeito que a gente vive o rio — está errado. Mas como pode estar errado o nome que a gente aprendeu antes de saber ler, olhando para a espuma branca das corredeiras?
Não mexam no nosso “ão”. Ele é a parte mais pesada da palavra, aquela que ancora a pedra no fundo do leito. Tirar o aumentativo é tentar amansar o rio no papel, enquanto ele continua lá, bruto e soberano, ignorando solenemente os manuais de redação da capital.
O “Lourenço” pode até existir nos cartórios e nos relatórios de impacto ambiental, mas o Lourenção é quem manda na correnteza e na nossa saudade. Deixem o nosso gigante em paz, com todas as suas letras, com toda a sua magnitude. Porque, no Tocantins, o que é grande de verdade a gente batiza é com o coração.



