Hiroshi Bogéa  –  Nesta segunda-feira, 12, no grupo da minha família (irmãos) que compartilhamos no Zap, deparei com uma foto de meu pai e minha mãe, segurando as mãos. Nas indagações que fizemos um aos outros, ninguém soube afirmar se a fotografia foi a última feita dos dois. Fiquei emocionado, porque a foto simboliza uma história de raízes profundas, como as das castanheiras que eles tanto conheceram.

A foto não registra apenas um momento, mas o peso e a leveza de mais de setenta anos de convivência.

Olhando a imagem, busco honrar essa trajetória e, ao mesmo tempo, uma reflexão sobre o que a ciência nos diz sobre um silêncio da alma que nossa mãe carrega desde a morte do velho João Bogéa.

Na foto, o cenário é de uma simplicidade quase sagrada. Um bolo, uma mesa branca, o silêncio do entardecer. Ele exibe no tronco a força daqueles que não apenas viveram na mata, mas se tornaram parte dela. Mamãe,  sentada em sua cadeira, parece flutuar entre dois mundos: o aqui e o agora, e o labirinto sem mapas do Alzheimer.

Há uma força mansa na foto que o tempo não consegue apagar. Nela, dois corpos cansados, esculpidos por quase um século de existência, dividem a mesa e o destino. Ele, aos 94, prestes a partir; ela, a companheira de jornada aos 89, à época.

O centro da foto, porém, não são os rostos, mas as mãos.

Aquelas mãos não se seguram por pose; elas se seguram por hábito, por sobrevivência e por uma camaradagem forjada no esforço bruto da extração da castanha. Foram mais de sete décadas de um nó apertado.

Dizer que viveram em absoluta paz seria desmerecer a humanidade deles. A foto revela uma união forjada no fogo. Houve conflitos, sim; faíscas de duas personalidades fortes que, como pedras que se chocam, acabaram por se polir mutuamente. Mas, acima do ruído das discussões, sempre prevaleceu a camaradagem. Eram parceiros de trincheira. No fim das contas, a mão que gesticulava no calor de uma briga era a mesma que, instantes depois, buscava o toque do outro para reafirmar: “Eu ainda estou aqui”.

Aquela foi a despedida silenciosa. Ele se foi pouco depois, levando consigo as memórias das matas que desbravaram juntos. Ela ficou, e com ela, o mistério do esquecimento.

É profundamente intrigante que, após a partida dele, mãe nunca mais tenha pronunciado o nome do companheiro. Para a ciência, esse fenômeno — que parece um apagamento deliberado — pode ser explicado por alguns ângulos, conforme pesquisa que fiz em sites especializados

O Alzheimer costuma apagar as memórias de trás para frente. É possível que a mente de dona Lourdes Bogéa tenha regredido a uma fase da vida anterior ao casamento, ou a um ponto onde a figura dele ainda não era a centralidade de seus dias. Se o nome desapareceu, é porque a “gaveta” onde ele estava guardado foi selada pela neurodegeneração, diz a Revista Brasileira de Geriatria e Gerontologia

A doença pode causar a perda da capacidade de nomear objetos e pessoas, mesmo que o sentimento ainda exista. Ela pode não saber o nome, mas o corpo dela guarda o eco daquela presença, informa o “Relatório Nacional sobre a Demência”, publicado pela Biblioteca Virtual em Saúde MS.

Outra teoria revelada pela  Revista Brasileira de Geriatria e Gerontologia revela que o cérebro, mesmo fragilizado, opera mecanismos de sobrevivência. A dor da perda de alguém com quem se viveu por 70 anos seria insuportável.

O Alzheimer, trocando em miúdos, em sua paradoxal “misericórdia”, pode ter erguido um muro. Se o nome do marido não é dito, a falta não é sentida pela nossa mãe. O esquecimento torna-se, então, um anestésico contra a saudade que ela não teria estrutura para processar.

Para o mundo, parece que ele nunca existiu na vida dela. Mas a foto desmente o esquecimento. O fato de ela não falar o nome dele não apaga o fato de que, por mais de 70 anos, as digitais dele ficaram gravadas na pele dela, e as dela, na dele.

A ciência explica as conexões nervosas, mas só o amor — com todos os seus conflitos e parcerias — explica como duas pessoas conseguem segurar a mão uma da outra por tanto tempo, até que a mata da vida se feche por completo.