Hiroshi Bogéa On line

Nas esquinas do mundo

Tenho uma amiga que um dia decidiu entrar na política. Poderia muito bem viver distante disso, na calmaria de seus familiares e sonhos. Sonhos, às vezes angustiantes, demasiadamente pesados pra ela, sonhadora permanente.

Quase não nos vimos. Mas quando há reencontros, nos sentimos bem falando de tudo, conversando sobre política, os sonhos dela na política – quase inatingíveis porque ela (a amiga), às vezes, quer ir mais além, no sentido salvar o mundo.

Ou as coisas mais importantes desse mundo, quando se pensa e se sente a desgraça alheia.

Neste fim de semana, recebi dessa pessoa maravilhosa, um email, que reproduzo a seguir.

(Como a conheço, imagino o tipo de “momento” em que ela estava “vivendo” pra se confessar assim, desnuda, certamente querendo alguém por perto pra conversar.)


Oi, meu amigo,
Ao ler este texto me lembrei de você!

Quando leio o seu Blog (leio sim), admiro a sua capacidade de transmitir em um texto a sua sensibilidade ao traduzir a sua emoção e provocar a nossa!

Publique, se quiser, mas não cite o meu nome. Será um segredo nosso. Muitas pessoas não acreditam que pessoas públicas possam ter carinho umas com as outras. Beijo.

Esquinas
Djavan

Só eu sei
As esquinas por que passei
Só eu sei só eu sei
Sabe lá o que é não ter e ter que ter pra dar
Sabe lá
Sabe lá
E quem será
Nos arredores do amor
Que vai saber reparar
Que o dia nasceu
Só eu sei
Os desertos que atravessei
Só eu sei
Só eu sei
Sabe lá
O que é morrer de sede em frente ao mar
Sabe lá
Sabe lá
E quem será
Na correnteza do amor que vai saber se guiar
A nave em breve ao vento vaga de leve e trás
Toda a paz que um dia o desejo levou
Só eu sei
As esquinas por que passei
Só eu sei
Só eu sei
E quem será…Na correnteza do amor…

Continua minha amiga, em seu email:

Esta música de Djavan (que o blog posta em homenagem a ela) me toca profundamente e o texto a seguir é muito interessante!!!

A massacrante felicidade dos outros
Martha Medeiros

Ao amadurecer, descobrimos que a grama do vizinho, não é mais verde, coisíssima nenhuma.
Estamos todos no mesmo barco.
Há no ar, uma certa queixa, um lamento, sem razões muito claras.
Converso com mulheres, de várias idades, todas com profissão, marido, filhos, saúde, e ainda assim, elas trazem dentro delas, um não-sei-o-quê perturbador, algo que as incomoda, mesmo estando tudo bem.
De onde vem isso?

Anos atrás, a cantora “Marina Lima” compôs com o seu irmão, o poeta “Antônio Cícero”, uma música que dizia:

“Eu espero/ acontecimentos/ só que, quando anoitece/ é festa no outro apartamento”

Passei minha adolescência com esta sensação: a de que algo, muito animado, estava acontecendo em algum lugar, para o qual eu não tinha convite.
É uma das características da juventude: considerar-se deslocado e impedido de ser feliz como os outros são ou …. aparentam ser.
Só que chega uma hora em que é preciso, deixar de ficar tão ligada na grama do vizinho.

As festas em outros apartamentos, são fruto da nossa imaginação, que é infectada por falsos holofotes, falsos sorrisos e falsas notícias.

Os notáveis, alardeiam muito, suas vitórias, mas falam pouco das suas angústias, revelam pouco suas aflições, não dão bandeira das suas fraquezas, então, fica parecendo que todos estão comemorando, grandes paixões e fortunas, quando na verdade a festa lá fora, não está tão animada assim!

Ao amadurecer, descobrimos que a grama do vizinho, não é mais verde, coisíssima nenhuma.

Estamos, todos, no mesmo barco, com motivos para dançar pela sala e também, motivos para se refugiar no escuro, alternadamente……

Só que os motivos para se refugiar no escuro, raramente, são divulgados.
Para consumo externo, todos são belos, sexys, lúcidos, ricos e sedutores.

Nesta era, de exaltação de celebridades – reais e inventadas – fica difícil mesmo, achar que a vida da gente tem graça.

Mas tem. Paz interior, amigos leais, nossas músicas, livros, fantasias, desilusões e recomeços, tudo isso, vale ser incluído na nossa biografia.

Ou será, que é tão divertido passar dois dias na Ilha de Caras fotografando junto a todos os produtos dos patrocinadores?

Compensa passar a vida comendo alface para ter o corpo que a profissão de modelo exige?

Será tão gratificante ter um paparazzo na sua cola, cada vez que você sai de casa?

Estarão mesmo, todos, realizando um milhão de coisas interessantes, enquanto só você, está sentada no sofá pintando as unhas do pé?

Favor não confundir uma vida sensacional com uma vida sensacionalista…

“As melhores festas, acontecem dentro do nosso próprio apartamento”.

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1 Comentário

  1. Anonymous

    22 de setembro de 2009 - 09:38 - 9:38
    Reply

    Parabens pela simplicidade do texto em resumir a nossa realidade!
    Parabens a autora e a voce, caro Hiroshi, por transformar o nosso dia de cão em festa!É isso mesmo!
    Hoje, terei um dia fantástico!

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