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“Samuca, um grande praça”

Meu comunista preferido , escritor, cronista, dono do Restaurante Terra do Meio, lá em Marituba, onde a paz e institucionalizada, André Costa Nunes, é o autor dessa preciosidade que reproduzo abaixo.

 

 

O BOM JUDEU

André Costa Nunes

Chama-se Samuel, mas para nós, apenas Samuca. Um grande praça. Lembrava outro amigo de longas datas. Samuca Levi. Tive muitos amigos do bem. Tanto quanto os dois. Mais do bem, impossível.

Pois é, este Samuca mora em Marituba. Sempre vai me visitar de manhã cedo, ou ao cair da tarde quando já não tem clientes no restaurante. Papo de beira como antigamente. Regado a licor de Jamburana. Beira do rio Uriboquinha, naturalmente. Quando não vai, sinto falta dele. E cobro. Ele, todo gentilezas, se justifica.

Vive para sua família, é religioso, mas sempre antenado com o mundo. Não é jovem. Beira os cinquenta. Ri quando eu digo que para mim é uma criança. Não gosta, mas também não se aborrece quando o chamo de bom judeu. Lembra o preconceito do bom selvagem, bom crioulo de alma branca e outras baboseiras racistas. No fundo nós dois sabemos que toda discriminação é odiosa e nos provoca urticária.

Pois bem, foi numa dessas que ele me contou o sucesso. Havia acontecido há três dias, isto é, ternantesdontem:

Ia ele a pé, pelo bairro da Santa Lúcia, aqui perto, por uma estradinha erma, vê que perigo, quando notou, perto da vala, semienterrada, uma lâmpada. Daquelas de antigamente. Antigamente do Oriente, porque nunca vimos desse feitio por aqui, nem lamparina nem candeeiro, mais parece um bule ou chávena. Ele, inteligente, letrado, identificou logo como a lâmpada de Aladim. Toda suja de barro. Tratou de apanhá-la e foi logo esfregando na camisa, nem se lembrou que era nova, de linho e que a comadre Sarah engomara com tanto capricho.

Não deu outra. Aconteceu o que previra. Primeiro saiu do bico do bule uma fumaça fina que depois foi engrossando, até materializar-se naquele enorme negão (!) meio obeso, de turbante, calça bag, meio bombacha, braços cruzados no peito e, logo percebeu que o Samuca era judeu – gênio sabe tudo, meio atrapalhado, mas sabe – foi logo falando, mal humorado em hakitia, uma língua românico-judaica em extinção, só falada, ainda, em Belém por descendentes sefarditas. Samuca fala haquitia.

– O que queres? Os tempos estão bicudos. Só tens direito a um pedido.

O bom judeu, não pensou muito. Pediu, emocionado, a paz para o Oriente Médio.

Depois de muito pensar, suando em bicas, o gênio arrasado, cabisbaixo, falou.

– Pela primeira vez em milênios, não vou cumprir um desejo de meu salvador. E triste, arrasado, pediu-lhe fizesse outro pedido.

De novo Samuca nem pestanejou e, pensando no Jacozinho com asma, sem poder dormir, na Estherzinha recém nascida e na sogra Shulamith, com quase noventa e que considerava como mãe foi logo pedindo.

– Por favor, seu Gênio, eu quero que o senhor toque o coração e a consciência do Governador Jatene para que tire rapidamente esse lixão de Marituba. Se ajoelhou e continuou – peço não só por mim, mas por Jacozinho, Estherzinha e Shulamith. Tirou do bolso o quipá, só usado em ocasião solene ou de devoção, sem levantar os olhos o ajustou na cabeça.

De repente, sentiu a mão do gênio no seu ombro. Abaixou-se e também sem encarar o Samuca, estendeu no chão um mapa mundi e falou quase num sussurro:

– Seu Samuel, onde é que fica mesmo esse tal de Oriente Médio?

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