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Riquezas naturais e obras dos padres jesuítas movimentam o turismo religioso no Pará

Márcio Flexa, repórter da Agência Pará, nos mostra as riquezas do turismo religioso herdado dos religiosos que catequizaram nativos e ergueram belíssimas construções em alguns municípios paraenses.

Abaixo, a narrativa do repórter:

 

Igreja de São Benedito, um dos pontos mais visitados de Bragança. (Foto Thiago Gomes)

As águas que trouxeram os colonizadores ao estado do Pará são as mesmas que hoje oferecem aos visitantes paraísos naturais. No caso de Bragança, no nordeste paraense, e de Salvaterra, no arquipélago do Marajó, os padres da Companhia de Jesus que vieram catequizar os nativos que ali viviam deixaram uma imensa herança cultural, arquitetônica e histórica, que torna essas duas cidades paraenses ainda mais atraentes para quem as escolhe como roteiro de viagem.

Os padres da Companhia de Jesus fizeram parte do projeto colonizador dos povos europeus na Amazônia. Por determinação régia, deram início à atividade de catequese dos índios, organizando os primeiros aldeamentos na Amazônia, para garantir o domínio português na região, inclusive para a obtenção de aliados nas lutas contra possíveis invasores estrangeiros.

A Companhia de Jesus foi a ordem religiosa de maior importância na ação missionária inserida no processo de ocupação e de colonização lusitana. A região hoje ocupada pelo município de Salvaterra, a quase quatro horas de distância da capital, Belém, em razão de sua localização privilegiada na entrada do delta do rio Amazonas, teve um papel fundamental no processo de conquista da região Norte do Brasil.

O historiador Marcos Alexandre Ribeiro explica que os padres jesuítas foram enviados às colônias na primeira década do século XVII para combater o avanço de franceses, ingleses, holandeses e irlandeses, que já navegavam por essas rotas e aprenderam a dialogar com os povos indígenas, estabelecendo novos contatos. Mas os povos que habitavam a Amazônia marajoara não assistiram passivamente a chegada do invasor. “Experientes em contatos e guerras tribais anteriormente vividas, entre si e com outras nações, Aruãns, Sacacas, Marauanás, Caiás, Araris, Anajás, Muanás, Mapuás e Pacajás, entre outras etnias, e os batizados de Nheengaíbas, enfrentaram as armas portuguesas por quase 20 anos”, detalha.

A vila de Monsarás, pertencente ao município de Salvaterra, foi o palco da chegada dos padres Jesuítas, que posteriormente construíram uma igreja na Vila de Joanes para a catequização dos indígenas. As ruínas da igreja na vila costumam ser ponto de parada dos turistas.

Monsarás é uma vila onde reina a paz e a tranqüilidade. O lugar conta com uma bela praia por onde supõe-se que os padres devam ter aportado para a conquista da ilha. O distrito guarda um tesouro da presença dos religiosos no Marajó: imagens do século XVII e tradições católicas que permanecem até hoje entre os moradores da comunidade. “Utilizando a música, o teatro e a catequese, os padres iniciaram a colonização e a urbanização de vilas no Marajó, como a própria Monsarás e Joanes. Estas lutas ocorreram nas praias de Monsarás e Salvaterra”, explica o historiador.

As missões eram construídas ao redor de uma capela, onde também ficavam as moradias dos padres e dos colonos. Os traços deste processo resistem ao tempo e podem ser conhecidos tanto na capela de São Francisco de Assis, em Monsarás, construída há cerca de 300 anos, quanto nas ruínas da igreja de Nossa Senhora do Rosário, em Joanes, com construção datada do século XVIII.

Salvaterra oferece aos visitantes um belo recanto amazônico com praias de água doce, igarapés e fazendas. Pelos campos encharcados durante as grandes águas do inverno, passeiam búfalos montados por vaqueiros, e é possível ver também uma infinidade de pássaros, como as garças e os guarás, abundantes na ilha. O próprio nome de Salvaterra se origina da exclamação dos padres jesuítas diante das belezas da região: “Salve Terra”.

 

Bragança: uma das cidades mais católicas do Pará

Outra missão jesuíta aportou no nordeste do Pará pelas águas de um dos rios mais ricos em história do Estado, o Caeté, que banha a cidade de Bragança. Com pequena profundidade, por sua extensão de cerca de 60 km, navegam pequenas embarcações. Bragança possui uma população estimada em 122.881 habitantes (2016) e é uma das cidades mais importantes do Pará e da região Norte do Brasil.

As margens do rio Caeté são marcadas por belas palmeiras imperiais. O município tem ao Norte de seu território, belezas incomparáveis que integram um ecossistema em que se destacam manguezais e quilômetros de praias. As marcas da colonização portuguesa são fortes no chamado polígono histórico de Bragança, incluindo a área onde hoje está o Cruzeiro da Aldeia, assim como a Igreja de São João Batista, hoje desativada.

Para o historiador Dário Benedito Rodrigues, os padres da Companhia de Jesus tiveram papel decisivo na manutenção do catolicismo como religião predominante no município. “Os padres atuaram na organização, catequização e aculturação de indígenas no século XVII e depois, com outra roupagem, no núcleo de urbanização de Bragança”, comenta.

A herança mais importante da presença dos padres jesuítas na região do Caeté é a Igreja de São Benedito, um dos pontos mais visitados da cidade. Localizada no Centro Histórico, no Largo de São Benedito, o complexo tem como elemento principal a Igreja construída por volta de 1753, com traços barrocos na parte interna, abrigando a efígie de São Benedito, centro dos festejos da Marujada.

“A igreja de São Benedito, que passou a ter este nome alguns anos depois de construída, foi erguida por indígenas e padres jesuítas com toda a arquitetura e as marcas características das construções feitas pela Companhia de Jesus”, ressalta. O historiador também comenta que os Jesuítas foram os primeiros, mas outras ordens tiveram papel determinante na construção da religiosidade católica do povo bragantino, como os Mercedários, os Franciscanos, os Barnabitas e os Diocesanos.

A igreja de São Benedito é o centro da maior festividade católica de Bragança, a festa de São Benedito, que recebe o nome de marujada por ser organizada, desde 1798, pela Irmandade da Marujada. A festividade começa com uma missa campal em frente à Paróquia São Benedito e termina com uma procissão com a imagem do padroeiro.

A igreja é a única no município que apresenta o estilo arquitetônico dos padres jesuítas, com valor imaterial inestimável e que tem como ornamento a imagem esculpida em estilo português, datada da segunda metade do século XIX (1850), assim como uma esplêndida ornamentação característica. “A saída dos jesuítas do Brasil se deu 41 anos antes do período em que se originou a festa de São Benedito, que nasceu por volta de 1798. No entanto, a formação do grupo senhorial e sua devoção, de caráter leigo, demonstram a força da catequização iniciada pelos jesuítas na região”, explica. O historiador comenta que a igreja de São Benedito passou a ter este nome a partir de 1872 e congrega as manifestações de cunho artístico e religioso.

 

Nota do Blog:  Para a leitura do texto completo do Márcio Flexa e apreciação de belíssimas  fotos de  Thiago Gomes, acesse A Q U I .

 

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